Curva de juros: entenda taxa spot e taxa a termo
Quando falamos em renda fixa, é comum pensar que cada investimento possui simplesmente uma taxa de juros: 10% ao ano, 12% ao ano, 13% ao ano e assim por diante.
Mas existe uma segunda variável fundamental nessa análise: o prazo.
Uma taxa para seis meses não necessariamente será igual à taxa para um ano, dois anos ou cinco anos. Quando relacionamos as taxas de juros aos diferentes vencimentos, começamos a construir aquilo que chamamos de curva de juros, também conhecida como yield curve.
Essa curva é importante não apenas para visualizar se os juros de longo prazo estão acima ou abaixo dos juros de curto prazo. Ela funciona como uma referência para a precificação de diversos instrumentos de renda fixa e também nos permite compreender conceitos como taxa spot e taxa a termo (forward).
Na Capriata Cursos, gosto de ensinar esse assunto seguindo uma sequência: primeiro entendemos o que cada ponto da curva representa; depois analisamos seu formato; e, por último, utilizamos a própria estrutura das taxas para descobrir qual taxa futura está implícita nos preços atuais.
É essa lógica que vamos desenvolver neste artigo.
O que é a curva de juros?
A curva de juros é a representação gráfica da relação entre as taxas de retorno e os diferentes prazos de vencimento de instrumentos com características comparáveis.
Em uma representação simplificada, temos:
- no eixo horizontal: prazo ou vencimento;
- no eixo vertical: taxa de juros ou retorno.
Podemos encontrar, por exemplo, uma taxa para um ano, outra para dois anos, outra para três anos e assim sucessivamente.
Ao conectar esses diferentes pontos, obtemos uma curva.
O objetivo não é simplesmente produzir um gráfico. A curva permite observar como o mercado está precificando taxas para diferentes horizontes de tempo.
Essa relação entre juros e prazo também é chamada de estrutura a termo das taxas de juros.
Por que os títulos públicos são utilizados como referência?
A construção e a interpretação de curvas de juros exigem que façamos comparações coerentes.
Se comparássemos diretamente dois títulos de empresas completamente diferentes, uma diferença entre suas taxas poderia decorrer não apenas do prazo, mas também de diferenças no risco de crédito.
Por isso, títulos públicos são frequentemente utilizados como referência para a estrutura de juros.
No material que trabalhamos em aula, dois aspectos ajudam a compreender essa escolha: a utilização dos títulos soberanos como referência de baixo risco de crédito e sua elevada liquidez, fazendo com que os preços negociados incorporem continuamente informações do mercado.
A partir dessa referência, podemos pensar de forma didática na remuneração exigida de outro título como:
Taxa de retorno = taxa de referência + prêmio de risco
Esse prêmio adicional procura remunerar riscos que não estão presentes — ou que aparecem de maneira diferente — no ativo utilizado como referência.
É justamente por isso que a curva de juros pode servir como benchmark para a precificação de instrumentos de renda fixa.
Quais são os formatos da curva de juros?
Existem três formatos básicos que precisamos conhecer: curva normal ou positiva, curva invertida e curva plana.
Mais importante do que decorar os nomes é entender o que acontece com as taxas à medida que aumentamos o prazo.
Curva de juros normal ou positiva
Na curva normal, também chamada de positiva ou ascendente, as taxas aumentam conforme o vencimento se torna mais longo.
Podemos imaginar:
| Prazo | Taxa hipotética |
|---|---|
| 1 ano | 10% a.a. |
| 2 anos | 11% a.a. |
| 3 anos | 12% a.a. |
| 4 anos | 12,5% a.a. |
Graficamente, teríamos uma curva ascendente.
Ou seja:
prazo maior → taxa maior
Esse é o formato tradicionalmente denominado curva de retornos normal.
Curva de juros invertida
Na curva invertida, ocorre o contrário.
As taxas dos vencimentos mais longos ficam abaixo das taxas dos vencimentos mais curtos.
Um exemplo:
| Prazo | Taxa hipotética |
|---|---|
| 1 ano | 13% a.a. |
| 2 anos | 12% a.a. |
| 3 anos | 11% a.a. |
| 4 anos | 10% a.a. |
Temos:
prazo maior → taxa menor
Graficamente, a curva apresenta inclinação descendente.
É importante tomar cuidado com uma simplificação comum: a curva não é uma previsão perfeita do que acontecerá com a taxa básica de juros. Os preços de mercado incorporam expectativas e diferentes fatores econômicos e financeiros.
Portanto, devemos tratá-la como uma informação produzida pela estrutura atual de preços e taxas, e não como uma certeza sobre o futuro.
Curva de juros plana
Na curva plana, ou flat, as taxas para diferentes vencimentos ficam próximas umas das outras.
Por exemplo:
1 ano → 11%
2 anos → 11,1%
3 anos → 11%
4 anos → 11,1%
Nesse caso, a mudança de prazo produz pouca alteração na taxa observada.
Na prática, naturalmente, a curva pode assumir formatos mais complexos do que esses três exemplos didáticos.
Por que a curva de juros é importante para a renda fixa?
A curva possui uma função essencial como referência para a precificação de instrumentos de dívida.
Imagine que queremos analisar um título privado com vencimento em três anos.
Não seria suficiente olhar para uma taxa qualquer do mercado. Precisamos considerar uma referência compatível com aquele horizonte e, posteriormente, incorporar as características e os riscos específicos do título analisado.
Por isso, a estrutura das taxas de juros afeta a avaliação de diferentes instrumentos financeiros.
Esse raciocínio pode ser aplicado a títulos de renda fixa, dívidas corporativas e outras operações de crédito.
É aqui que começamos a entender por que estudar a curva vai muito além de saber desenhar três linhas em um gráfico.
Está pensando em começar seus estudos?
Fale com nossa equipe pelo WhatsApp, tire suas dúvidas e encontre o curso ideal para você.
Falar no WhatsAppO que é taxa spot?
Para avançarmos, precisamos entender a taxa spot.
De maneira simplificada, a taxa spot representa a taxa associada hoje a uma aplicação ou fluxo para determinado vencimento, considerando a estrutura correspondente.
Quando trabalhamos com um instrumento de cupom zero, existe apenas um fluxo no vencimento.
Imagine que temos:
Taxa spot de 1 ano = 10% a.a.
Isso significa que conhecemos hoje a taxa correspondente àquele horizonte de um ano.
Também podemos ter:
Taxa spot de 2 anos = 11% a.a.
A representação gráfica da relação entre as diferentes taxas spot e seus respectivos vencimentos é denominada curva de taxa spot.
Por que precisamos de uma curva spot teórica?
Aqui aparece uma dificuldade prática.
Para construirmos uma curva spot completa apenas por observação direta, precisaríamos encontrar instrumentos de cupom zero negociados para todos os vencimentos que desejamos analisar.
Isso não necessariamente acontece.
Por esse motivo, a curva pode precisar ser derivada a partir das informações disponíveis nos instrumentos efetivamente negociados no mercado.
Chegamos, então, à chamada curva teórica da taxa spot.
Essa curva representa a estrutura a termo das taxas de juros e nos fornece uma base para trabalhar com diferentes vencimentos.
Mas ainda falta uma peça importante.
Se conhecemos hoje uma taxa para um ano e uma taxa para dois anos, será que conseguimos descobrir qual taxa entre o primeiro e o segundo ano está implícita nessa estrutura?
Sim.
É aí que entra a taxa a termo.
O que é taxa a termo ou forward?
A taxa a termo, também conhecida como forward rate, é uma taxa futura implícita que pode ser obtida a partir das taxas spot observadas para diferentes vencimentos.
Vamos utilizar o exemplo que trabalho neste conteúdo.
Imagine um investidor com horizonte de dois anos.
Ele possui duas alternativas.
Na primeira, aplica diretamente em um CDB com vencimento em dois anos, com taxa de:
11% a.a.
Na segunda, aplica inicialmente em um CDB de um ano:
10% a.a.
Quando esse primeiro CDB vencer, ele aplicará novamente por mais um ano.
Existe, entretanto, uma diferença fundamental.
Na primeira estratégia, conhecemos hoje a taxa para os dois anos.
Na segunda, conhecemos a taxa do primeiro ano, mas não sabemos qual será efetivamente a taxa disponível no mercado daqui a um ano para uma nova aplicação de um ano.
Podemos, porém, calcular qual taxa para o período entre o primeiro e o segundo ano está implícita na estrutura atual das taxas spot.
Essa é a taxa a termo.
Relação entre taxa spot e taxa a termo
Considerando capitalização composta, podemos representar a relação da seguinte maneira:
(1 + spot de 2 anos)² = (1 + spot de 1 ano) × (1 + taxa a termo 1→2)
Isolando a taxa a termo:
1 + taxa a termo 1→2 = (1 + spot de 2 anos)² / (1 + spot de 1 ano)
E, portanto:
taxa a termo 1→2 = [(1 + spot de 2 anos)² / (1 + spot de 1 ano)] − 1
Agora vamos utilizar os números do exemplo.
Temos:
Spot de 1 ano = 10%
Spot de 2 anos = 11% a.a.
Logo:
(1 + 0,11)² = (1 + 0,10) × (1 + termo 1→2)
Temos:
1,11² = 1,10 × (1 + termo 1→2)
1,2321 = 1,10 × (1 + termo 1→2)
Dividindo os dois lados por 1,10:
1 + termo 1→2 = 1,2321 / 1,10
1 + termo 1→2 = 1,12
Portanto:
taxa a termo 1→2 = 12% a.a.
Essa é uma conclusão muito interessante.
A taxa spot de dois anos é 11% a.a., mas a taxa implícita entre o primeiro e o segundo ano é 12% a.a.
Por que a taxa a termo deu 12% e não 11%?
Esse ponto costuma gerar dúvida.
Se temos 10% no primeiro ano e 11% ao ano para dois anos, alguém poderia pensar:
“Então a taxa do segundo ano deve ser 12%, porque a média de 10% e 12% é 11%.”
Apesar de neste exemplo chegarmos a 12%, esse raciocínio por média aritmética não é o correto.
Estamos trabalhando com capitalização composta.
Veja o investimento de R$ 100 durante dois anos a 11% a.a.:
R$ 100 × 1,11² = R$ 123,21
Agora reproduza o mesmo resultado usando 10% no primeiro ano:
R$ 100 × 1,10 = R$ 110
Para transformar R$ 110 em R$ 123,20 aproximadamente no segundo período, precisamos de 12%:
R$ 110 × 1,12 = R$ 123,20
A pequena diferença de centavos decorre do arredondamento.
Essa é a lógica econômica e matemática que está por trás da fórmula.
Em vez de decorar:
(1 + spot₂)² = (1 + spot₁)(1 + forward)
entenda que estamos procurando uma taxa que faça com que as duas trajetórias de investimento sejam financeiramente equivalentes, dadas as taxas utilizadas na estrutura.
Essa compreensão torna a fórmula muito mais fácil de reconstruir.
O prazo dos dois lados da equação precisa ser equivalente
Existe uma regra didática importante para montar esse tipo de equação.
O período total representado de um lado precisa corresponder aos períodos considerados do outro lado.
No nosso exemplo:
2 anos = 1º ano + período entre o 1º e o 2º ano
Por isso:
spot de 2 anos = spot do primeiro ano + termo 1→2
Naturalmente, não estamos simplesmente somando as taxas. Estamos compondo os fatores de capitalização correspondentes a esses períodos.
Essa distinção é essencial.
Quando os períodos mudam, os expoentes e a estrutura da equação também precisam refletir corretamente os horizontes envolvidos.
Taxa a termo é uma previsão garantida da taxa futura?
Não.
Essa é provavelmente uma das distinções conceituais mais importantes do assunto.
A taxa a termo calculada a partir da curva é uma taxa implícita na estrutura atual das taxas.
No nosso exemplo, encontramos 12% para o período entre o primeiro e o segundo ano.
Isso não significa que, quando chegar o segundo ano, necessariamente existirá um CDB oferecendo exatamente 12%.
Até lá, as condições econômicas, as expectativas e as taxas negociadas no mercado podem mudar.
Por isso, é importante diferenciar:
taxa futura efetivamente observada no futuro
de
taxa a termo implícita calculada hoje.
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Quero saber maisSão conceitos diferentes.
Curva de juros, spot e forward: como conectar os conceitos?
Quando ensino esse assunto, considero útil visualizar uma sequência.
Primeiro temos diferentes prazos.
Para esses prazos, existem diferentes taxas.
A relação entre taxas e vencimentos forma a estrutura a termo das taxas de juros.
Podemos trabalhar com uma curva de taxas spot, relacionando taxas spot aos respectivos vencimentos.
A partir de taxas spot para diferentes horizontes, conseguimos extrair taxas a termo implícitas.
Assim, os conceitos não estão isolados.
Eles fazem parte da mesma estrutura.
É justamente por isso que não recomendo estudar curva de juros decorando separadamente “normal”, “invertida”, “spot” e “forward”.
Quando entendemos a relação financeira entre esses elementos, as fórmulas passam a fazer sentido.
Como interpretar questões sobre curva de juros?
Em uma questão de prova, antes de começar qualquer cálculo, identifique qual taxa está sendo fornecida e qual taxa está sendo solicitada.
Se a questão informa uma taxa de hoje até dois anos, estamos diante de um horizonte diferente daquele representado por uma taxa que começa daqui a um ano e termina daqui a dois anos.
Essa linha do tempo ajuda bastante:
Hoje → 1 ano → 2 anos
Podemos representar:
Hoje → 1 ano: spot de 1 ano
Hoje → 2 anos: spot de 2 anos
1 ano → 2 anos: taxa a termo 1→2
A relação passa a ficar visualmente muito mais clara.
O erro mais comum é tratar todas essas taxas como se representassem o mesmo período.
Não representam.
Na visão da Capriata Cursos
Na Capriata Cursos, considero que curva de juros é um daqueles conteúdos que ficam difíceis quando o aluno tenta começar pela fórmula.
Se você simplesmente memorizar:
(1 + S₂)² = (1 + S₁)(1 + f₁,₂)
há uma grande chance de esquecer onde colocar cada taxa quando a questão mudar.
Prefiro começar pela linha do tempo.
Pergunte:
De quando até quando vai cada investimento?
No nosso exemplo, existem duas maneiras de chegar ao final do segundo ano.
Uma aplicação vai diretamente de hoje até o segundo ano.
A outra percorre o primeiro ano e depois o intervalo entre o primeiro e o segundo.
Quando percebemos que as duas estratégias precisam cobrir o mesmo horizonte, a equação deixa de parecer arbitrária.
Essa forma de estudar é especialmente importante para conteúdos de renda fixa cobrados nas certificações financeiras. No curso preparatório para a C-Pro R da Capriata Cursos, nosso objetivo é justamente desenvolver essa compreensão dos conceitos financeiros antes de partir para a resolução mecânica das questões.
A fórmula continua sendo necessária. Mas ela passa a ser consequência do raciocínio, e não o ponto de partida.
Perguntas frequentes sobre curva de juros
1. O que é curva de juros?
É a representação da relação entre taxas de juros ou retornos e diferentes prazos de vencimento de instrumentos comparáveis. Também está associada à estrutura a termo das taxas de juros.
2. O que significa uma curva de juros normal?
É uma curva ascendente, na qual as taxas dos vencimentos mais longos ficam acima das taxas dos vencimentos mais curtos.
3. O que é uma curva de juros invertida?
É uma curva descendente, em que as taxas dos vencimentos mais longos ficam abaixo das taxas observadas nos vencimentos mais curtos.
4. O que é uma curva de juros plana?
É uma estrutura em que as taxas permanecem próximas entre diferentes vencimentos, fazendo com que a curva apresente pouca inclinação.
5. O que é taxa spot?
É a taxa associada hoje a determinado horizonte de vencimento. A relação entre taxas spot e seus vencimentos forma a curva de taxas spot.
6. O que é taxa a termo?
A taxa a termo, ou forward, é uma taxa futura implícita que pode ser derivada a partir das taxas spot correspondentes a diferentes horizontes.
7. Como calcular uma taxa a termo?
Para uma taxa entre o primeiro e o segundo ano, por exemplo, podemos utilizar:
(1 + S₂)² = (1 + S₁) × (1 + f₁,₂)
A taxa a termo é aquela que torna equivalentes os fatores de capitalização dos períodos analisados.
8. A taxa a termo mostra exatamente qual será a taxa de juros no futuro?
Não. Ela representa uma taxa implícita na estrutura atual das taxas. As taxas efetivamente observadas no futuro podem ser diferentes.
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